O celular é desligado e, poucos segundos depois, começam o choro, a irritação ou a negociação para conseguir “só mais um pouco”.
Para muitas famílias, essa cena é familiar.
Isso não significa que toda birra após o uso de uma tela seja causada pelo celular, nem que dispositivos digitais sejam prejudiciais em qualquer circunstância. Mas pesquisas têm investigado uma questão importante: como o uso frequente ou prolongado de telas pode se relacionar ao desenvolvimento da regulação emocional na infância?
Para compreender essa relação, primeiro precisamos entender como uma criança aprende a lidar com as próprias emoções.
Regulação emocional também é aprendida
Regulação emocional é o conjunto de processos que nos ajuda a perceber, compreender e modular nossas respostas emocionais de acordo com cada situação.
Uma criança pequena ainda não possui todos os recursos necessários para fazer isso sozinha.
Nos primeiros anos de vida, os adultos exercem um papel importante nesse processo. Quando acolhem o choro, ajudam a nomear sentimentos, estabelecem limites e oferecem estratégias para lidar com a frustração, estão contribuindo para o desenvolvimento da autorregulação.
Com o amadurecimento, a criança amplia gradualmente a capacidade de reconhecer o que sente e escolher como responder.
Esse desenvolvimento continua ao longo da infância e depende tanto da maturação cerebral quanto das experiências cotidianas.
Onde as telas entram nessa relação?
Uma revisão sistemática citada no texto original encontrou associações entre maior exposição a telas e alguns indicadores de dificuldades emocionais e sociais em crianças.
Isso exige uma distinção importante: associação não significa necessariamente causa.
Uma criança pode utilizar mais telas porque já apresenta dificuldades comportamentais, por exemplo. Da mesma forma, características da rotina familiar, sono, atividade física, contexto socioeconômico e participação dos cuidadores também podem influenciar os resultados.
Ainda assim, existem mecanismos plausíveis que ajudam a entender por que o uso excessivo merece atenção.
1. Menos oportunidades de interação
Grande parte da aprendizagem emocional acontece na relação com outras pessoas.
Uma criança observa expressões faciais, percebe mudanças no tom de voz, enfrenta pequenas frustrações, espera sua vez e aprende que nem sempre terá acesso imediato ao que deseja.
Se muitas horas do dia forem ocupadas por dispositivos, algumas dessas oportunidades podem diminuir.
O ponto não é simplesmente contar minutos, mas observar o que a tela está substituindo.
Brincadeiras, conversas, sono, atividade física e convivência familiar também precisam ter espaço na rotina.
2. Usar a tela sempre para interromper emoções pode limitar outras estratégias
Em alguns momentos, recorrer a um desenho ou jogo para entreter a criança pode fazer parte da rotina familiar.
A questão merece atenção quando a tela se torna praticamente a única estratégia utilizada diante de tédio, frustração, espera ou irritação.
A criança também precisa experimentar essas emoções com apoio adequado para aprender, gradualmente, outras maneiras de lidar com elas.
O adulto pode ajudar nomeando o sentimento, oferecendo previsibilidade e sustentando limites compatíveis com a idade.
3. O contexto de uso também faz diferença
O impacto da tecnologia não depende apenas do número de horas.
Idade, tipo de conteúdo, horário, presença de um adulto, rotina de sono e finalidade do uso são fatores relevantes.
O texto original também cita estudos que encontraram associações entre uso de telas durante as refeições e maiores dificuldades emocionais.
Mais uma vez, esses resultados não permitem concluir que a televisão durante uma refeição, isoladamente, provocará desregulação. Eles sugerem que hábitos digitais precisam ser analisados dentro do conjunto da rotina da criança.
E quando aparecem irritabilidade e birras?
Irritar-se quando uma atividade prazerosa termina faz parte do desenvolvimento infantil.
Por isso, uma reação negativa ao desligar o aparelho, sozinha, não indica um transtorno.
É mais útil observar o padrão:
A dificuldade aparece apenas quando a tela é retirada ou também em outras situações?
A criança consegue se reorganizar com ajuda?
O comportamento interfere na escola, no sono ou na convivência familiar?
Existem dificuldades persistentes de atenção, linguagem, aprendizagem ou interação social?
Essas perguntas ajudam a diferenciar conflitos cotidianos de situações que podem exigir uma avaliação mais detalhada.
Como organizar o uso de telas em casa?
Algumas medidas podem favorecer uma relação mais equilibrada com os dispositivos:
estabelecer horários previsíveis para começar e terminar;
avisar antecipadamente quando o tempo estiver perto de acabar;
evitar que a tela seja a única maneira de lidar com frustração ou tédio;
preservar momentos de conversa e convivência nas refeições;
garantir espaço para brincadeiras, movimento e sono adequado;
escolher conteúdos compatíveis com a idade;
sempre que possível, acompanhar e conversar sobre aquilo que a criança está assistindo.
O objetivo não precisa ser eliminar a tecnologia. O foco está em ajudá-la a ocupar um lugar proporcional dentro da rotina.
Quando procurar ajuda profissional?
Birras e irritabilidade fazem parte da infância, mas frequência, intensidade, duração e impacto no cotidiano precisam ser considerados.
Quando as dificuldades emocionais são persistentes, aparecem em diferentes ambientes ou interferem de maneira significativa na vida familiar e escolar, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender os fatores envolvidos.
Em alguns casos, a avaliação neuropsicológica pode ser indicada para investigar de maneira mais ampla aspectos como atenção, funções executivas, linguagem, aprendizagem e autorregulação.
A decisão sobre essa indicação deve ser feita individualmente, a partir da história e das necessidades da criança.
Referências:
Silva, L. O., & Pessoa, L. F. (2025). Regulação Emocional Infantil: Uma Revisão Integrativa da Literatura Brasileira. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 25.
Vale, N. R. F., & Oliveira, A. R. (2025). Associação entre o Tempo de tela e as emoções em crianças: revisão sistemática. Psicologia Revista, 34(1).