Imagine que você aprendeu uma regra para resolver um problema.
Ela funciona várias vezes. De repente, sem aviso, deixa de funcionar.
Você insiste na estratégia anterior ou percebe a mudança e testa uma alternativa?
Essa capacidade de ajustar o comportamento diante de novas informações é chamada de flexibilidade cognitiva. Ela participa de atividades cotidianas como rever um planejamento, abandonar uma estratégia que não funciona e aprender com mudanças no ambiente.
Pesquisadores têm utilizado modelos computacionais para estudar com mais detalhes como o cérebro realiza esse tipo de adaptação.
Um desses modelos recebeu o nome de CogLinks.
Um modelo para estudar como aprendemos
O CogLinks foi desenvolvido por pesquisadores do MIT e da Tufts University com a proposta de simular aspectos do funcionamento de circuitos cerebrais envolvidos na aprendizagem.
Modelos desse tipo permitem manipular virtualmente determinadas conexões e observar como essas mudanças afetam o comportamento do sistema.
Isso oferece aos cientistas uma possibilidade interessante: testar hipóteses sobre mecanismos cerebrais que seriam muito mais difíceis de isolar diretamente em seres humanos.
O modelo não reproduz toda a complexidade de um cérebro humano. Ele representa determinados mecanismos de maneira simplificada para que possam ser investigados experimentalmente.
O cérebro precisa aprender — e também desaprender estratégias
Imagine duas formas de responder a uma situação.
Na primeira, repetimos uma ação porque ela funcionou diversas vezes. É uma aprendizagem fortemente guiada pela experiência anterior.
Na segunda, percebemos rapidamente que as condições mudaram e ajustamos nossa estratégia.
As duas são úteis.
O problema surge quando continuamos aplicando uma regra antiga mesmo depois de ela deixar de funcionar.
Para investigar esse processo, os pesquisadores estudaram a comunicação entre duas regiões: o córtex pré-frontal, associado a diferentes funções executivas, e o tálamo mediodorsal, estrutura que mantém conexões importantes com áreas pré-frontais.
O que aconteceu quando essa conexão foi modificada?
No modelo computacional descrito no texto original, pesquisadores enfraqueceram a conexão entre essas regiões.
O sistema apresentou maior dificuldade para ajustar rapidamente aquilo que havia aprendido e passou a depender mais de um processo gradual baseado em experiências anteriores.
Esse resultado levou os pesquisadores a investigar a participação do circuito tálamo-pré-frontal na flexibilidade da aprendizagem.
É um exemplo de como uma simulação pode gerar hipóteses que depois precisam ser comparadas com dados obtidos em pessoas.
E o que foi observado em seres humanos?
Os pesquisadores também avaliaram voluntários realizando uma tarefa na qual as regras mudavam ao longo do experimento.
Os dados de neuroimagem mostraram alterações na atividade do tálamo mediodorsal relacionadas aos momentos em que os participantes precisavam atualizar sua estratégia.
Os achados foram compatíveis com a hipótese investigada pelo modelo computacional.
Isso não significa que uma única estrutura cerebral controle nossa capacidade de mudar de ideia.
Funções cognitivas complexas dependem de redes formadas por diversas regiões interconectadas. O estudo ajuda a esclarecer a participação de um dos circuitos envolvidos nesse processo.
Flexibilidade cognitiva e saúde mental
A dificuldade para modificar estratégias diante de novas informações pode aparecer em diferentes contextos clínicos.
Pesquisadores estudam alterações de aprendizagem, tomada de decisão e flexibilidade em condições como transtorno obsessivo-compulsivo, esquizofrenia e TDAH.
Isso não significa que uma pessoa com dificuldade para mudar de estratégia tenha uma dessas condições.
Também não existe um padrão único de funcionamento cerebral que permita identificar esses diagnósticos apenas por essa característica.
Na clínica, sintomas precisam ser compreendidos considerando desenvolvimento, história de vida, funcionamento cognitivo, comportamento, contexto e outros fatores.
Modelos computacionais podem contribuir para tratamentos futuros?
Uma das possibilidades discutidas por essa linha de pesquisa é aproximar diferentes níveis de análise: alterações moleculares, funcionamento de circuitos cerebrais, processos cognitivos e comportamento.
Esse campo vem sendo associado ao desenvolvimento de abordagens computacionais para compreender transtornos psiquiátricos.
Ainda estamos falando, porém, de pesquisa.
Um modelo computacional capaz de reproduzir determinados aspectos da aprendizagem não é um instrumento clínico capaz de diagnosticar uma pessoa ou indicar sozinho qual tratamento ela deve receber.
Seu papel é ajudar pesquisadores a elaborar e testar hipóteses com maior precisão.
Onde a avaliação neuropsicológica entra nessa discussão?
Na prática clínica, não precisamos observar neurônios individualmente para investigar como uma pessoa lida com planejamento, atenção, inibição de respostas ou mudanças de estratégia.
A avaliação neuropsicológica utiliza diferentes fontes de informação para caracterizar o funcionamento cognitivo e compreender como determinadas dificuldades aparecem no cotidiano.
A flexibilidade cognitiva é apenas uma das funções que podem ser analisadas.
Quando existem dificuldades persistentes para planejar, organizar, sustentar a atenção ou adaptar comportamentos, a avaliação pode contribuir para compreender o perfil apresentado e orientar as próximas decisões clínicas.
A neurociência investiga mecanismos. A neuropsicologia clínica procura compreender como diferentes funções cognitivas se apresentam em uma pessoa específica.
São níveis distintos de análise — e ambos contribuem para uma compreensão mais cuidadosa do comportamento humano.
Referências:
Tufts University. (2025). A “flight simulator” for the brain reveals how we learn—and why minds sometimes go off course. Medical Xpress.
Wang, M. B., et al. (2025). Thalamic regulation of prefrontal dynamics supports flexible learning. Nature Communications.