Quando falamos em depressão, é comum pensar primeiro em tristeza persistente. Mas o transtorno depressivo pode se apresentar de maneiras bastante diferentes.
Algumas pessoas perdem o apetite e passam a acordar muito cedo. Outras apresentam aumento do sono, fadiga intensa ou maior apetite. Essa diversidade tem levado pesquisadores a investigar se diferentes conjuntos de sintomas também podem estar associados a diferenças na saúde física.
Um estudo apresentado em 2025 no congresso do European College of Neuropsychopharmacology acompanhou milhares de adultos e encontrou associações entre determinados perfis de sintomas depressivos e o desenvolvimento posterior de condições cardiometabólicas.
Os achados ajudam a ampliar a compreensão da depressão, mas precisam ser interpretados com cuidado.
Depressão não tem uma única apresentação
O estudo acompanhou aproximadamente 6 mil adultos durante cerca de sete anos e analisou dois conjuntos de características depressivas.
Um deles reunia sintomas tradicionalmente associados a um perfil chamado melancólico, incluindo perda de apetite e despertar precoce.
O outro envolvia sintomas como aumento do sono, maior apetite e baixa energia, características que podem aparecer em apresentações chamadas de atípicas.
Os pesquisadores observaram diferenças nas associações com a saúde física ao longo do acompanhamento.
Sintomas melancólicos e saúde cardiovascular
Participantes com características melancólicas apresentaram maior risco de desenvolver problemas cardiovasculares durante o período analisado.
Segundo os dados apresentados no estudo, esse risco foi aproximadamente 1,5 vez maior em comparação com o grupo de referência.
Isso não significa que acordar cedo ou perder o apetite provoque doença cardiovascular.
O estudo identifica uma associação entre um conjunto de sintomas depressivos e determinados desfechos de saúde. Diversos fatores biológicos, comportamentais e sociais podem participar dessa relação.
Sono aumentado, apetite e diabetes tipo 2
Outro padrão apareceu entre participantes com sintomas como fadiga, aumento do sono e aumento do apetite.
Nesse grupo, os pesquisadores encontraram uma associação mais forte com o desenvolvimento de diabetes tipo 2, com risco estimado em cerca de 2,7 vezes o observado no grupo de referência.
Os autores discutem possíveis relações com mecanismos metabólicos e inflamatórios, mas os resultados não permitem concluir que esses sintomas, isoladamente, sejam responsáveis pelo desenvolvimento da doença.
Eles indicam que diferentes apresentações da depressão podem estar relacionadas a perfis distintos de saúde física.
Saúde mental e saúde física precisam ser observadas em conjunto
A pesquisa reforça um ponto importante da assistência em saúde: sintomas psicológicos e condições físicas não existem em compartimentos completamente separados.
Sono, alimentação, energia, atividade física, uso de medicamentos, estresse e condições clínicas podem influenciar tanto o bem-estar emocional quanto o organismo.
Por isso, acompanhar uma pessoa com depressão envolve mais do que perguntar se ela está triste.
É necessário compreender como estão seu sono, apetite, nível de energia, funcionamento diário e saúde geral, além de considerar sua história clínica e o contexto em que os sintomas surgiram.
Esses sintomas permitem identificar qual tipo de depressão uma pessoa tem?
Não.
A presença de sono excessivo, perda de apetite ou fadiga não permite estabelecer um diagnóstico por conta própria.
Os sintomas precisam ser avaliados em conjunto, considerando intensidade, duração, impacto no cotidiano, outras condições de saúde e possíveis explicações alternativas.
Da mesma forma, uma pessoa com determinado perfil depressivo não necessariamente desenvolverá diabetes ou doença cardiovascular.
Os dados apresentados são probabilísticos e se referem aos grupos estudados. Eles não permitem prever individualmente o futuro de uma pessoa.
Qual é o papel da avaliação psicológica e neuropsicológica?
A avaliação neuropsicológica pode ser indicada quando existe uma questão clínica específica envolvendo atenção, memória, funções executivas ou outras habilidades cognitivas.
Na depressão, alterações cognitivas podem ocorrer, mas isso não significa que toda pessoa com sintomas depressivos precise passar por uma avaliação neuropsicológica.
A indicação depende da demanda clínica.
O diagnóstico e o acompanhamento da depressão também podem envolver psicólogo, psiquiatra e outros profissionais de saúde, especialmente quando existem alterações importantes de sono, alimentação ou condições médicas associadas.
Um olhar individualizado faz diferença
Duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico e apresentar experiências bastante diferentes.
Compreender essas diferenças contribui para um cuidado mais individualizado e para uma comunicação mais precisa entre paciente e profissionais.
Se alterações persistentes de humor, interesse, sono, apetite ou energia estiverem interferindo no cotidiano, procurar avaliação profissional é uma forma de compreender melhor o quadro e discutir as possibilidades de cuidado adequadas para aquela situação.
Referências:
European College of Neuropsychopharmacology. (2025). Your type of depression could shape your body's future health.
Medical Xpress. (2025). Different types of depression linked to different cardiometabolic diseases.
Milaneschi, Y. (2025). Dados do Netherlands Epidemiology of Obesity Study apresentados no ECNP Congress.